Um estúdio operado 99% remotamente.
Eu me lembro até hoje do dia 13 de maio de 2020, estávamos quase prontos para iniciar a transmissão, meio da tarde, estúdio em completo movimento, o que me marcou nesse dia foi uma fofoca mal feita “o jogador X tá com covid, estamos cancelando a transmissão”. No fim parecia que não tinha ninguém com covid garantido ainda, mas, nessa altura as vozes contra a produção presencial estavam ficando mais e mais altas.
Nesse dia a transmissão foi cancelada, não me lembro se chegamos a fazer uma inserção online do apresentador explicando o motivo, fui olhar nos canais relevantes e não encontrei registro, mas, tenho uma vaga memória.

Estúdio dividido entre análise/comentários e área de narração, 4 câmeras no estúdio, 2 micro câmeras pros times + 1 câmera móvel no cabo. Na técnica esse projeto esbanjava, montamos 2 switchers em cadeia, um exclusivo para corte de jogo e o outro pro corte final de pgm, o objetivo era dar mais segurança pro DTV in game e garantir que ele não influenciaria no corte de PGM sem querer. Grafismo no xPression, replay e VT em um VMix e alguns vários encoders com sinais de backup e cleanfeed (sem narração) para os streamers LATAM e second screen do Brasil.
Não vou entrar no mérito científico ou político, mas, eu tomei um susto na época. E agora? Tão considerando meu trabalho como impossível sem contato, o que vão fazer? Com a cabeça a mil, assim que o cancelamento e que mandaram ficar em casa, eu comecei a testar ferramentas pra conseguir argumentar que dava pra fazer tudo isso remotamente.
Em menos de 1 semana um esqueleto estava feito, lembro de testar diferentes ferramentas com o Rafael Abreu, nosso primeiros testes envolveram ferramentas como SRT, ZeroTier, TeamViewer, Parsec, Skype, Discord, VPN do microtik e jitsi.

Descartamos o TeamViewer no lugar do Parsec, o Parsec oferece alto framerate, baixa latência e alta qualidade. Tentamos fazer as mesas de corte xKeys funcinar via USB remoto, mas, não foi.
Inicialmente gostamos da solução SRT + ZeroTier, a qualidade da câmera é muito boa! Nosso maior problema ficou com o delay, que mesmo apertando o tempo de latência do SRT, ainda era alto o suficiente para atrapalhar na narração de um jogo de tiro. Essa solução foi testada tanto para receber as câmeras quanto para enviar o sinal de retorno para os narradores. Nesse caso o ZeroTier é utilizado para montar uma VPN e facilitar a conexão entre os pontos, sem necessidade de abertura de portas.
O Skype foi descartado pela inconsistência na qualidade da camera.
A solução das câmeras definida foi o jitsi meeting. Se formos para a atualidade, eu utilizaria algo como vdo.ninja, mas, na época ele não era difundido. O jitsi fornecia a baixa latência que precisávamos por ser um programa de reuniões, o baixo custo, já que a empresa não estava disposta a pagar e entregava uma qualidade compatível com a internet das pessoas, mediante a qualidade das rotas. O resultado foi 1 computador por talento com ele em tela cheia e pinado com um obs capturando a tela e uma interface de áudio enviando o áudio pra mesa de som. O OBS dava o output para uma decklink que ia para o ATEM de corte.
Para os retornos em tempo real para todos os participantes remotos e comunicação, usamos o Discord. Algumas contas foram criadas com a função de “PGM, Clean Feed e Multiview”, para os talentos ficava disponível um sinal de Clean Feed (apenas som de vídeos e jogo), para a equipe um sinal de multiview com o multiview do switcher e um sinal de PGM real, para os talentos também existia a disponibilidade de um PGM via Parsec, caso a qualidade do Discord não estivesse boa (algo que ocorreu algumas vezes). Além de tudo isso, o sinal de PGM dos talentos tinha um overlay a mais, que um bot do discord pegava as mensagens de um canal e inseria em cima da tela, para o diretor poder dar comandos via texto.
A comunicação da equipe também era via discord.
A operação de softwares em si era via o Parsec, conforme falei antes, então o vMix de vts e replay, os pcs que rodavam os jogos e o xPression eram controlados com ele.
Para a operação do ATEM e da mesa de som (uma Allen & Heath QU16) usamos uma vpn no microtik. Para o ATEM o software utilizado para controle foi o Just Macros. Como eu não sabia como o software. Eu estava com medo das possíveis instabilidades por utilizar um protocolo feito pensado em LAN via internet e fiz uma programação específica para que latência e gitter não fossem problemas nos comandos. Do lado do operador o Just Macros estava configurando uma opção não utilizada para nada, como por exemplo a cor do source de cor do ATEM para um valor específico. Cada valor tinha um comando atrelado no lado da execução, dentro do estúdio. No estúdio um Just Macros foi programado para ficar verificando constantemente o valor dessa configuração e executava as macros correspondentes localmente. Nossas macros no just macros controlavam não apenas o Atem, mas, também o xPression e o vMix de VTs, soltando artes e lista de vídeos nos momentos definidos pelo DTV.
Para a mesa de som nós fizemos o aplicativo funcionar, inicialmente tudo parecia ok, mas, infelizmente, usar esse protocolo pensado em LAN via internet, fez com que problemas não esperados surgissem, a mesa perdia a conexão com o app do tablet de tal forma que a mesa física chegava a congelar por alguns segundos. No fim essa foi a única estação que ficou com controle local, após a primeira transmissão e os problemas observados.
O resultado foi que em menos de 1 semana após o lockdown a gente tinha uma forma com zero contato para a operação. Infelizmente a velocidade de resposta da empresa foi muito lenta e não fomos a primeira produção grande de campeonato online a voltar, mas, eu tenho quase certeza que foi a única que voltou com a equipe quase 100% remota e apenas uma pessoa trabalhando presencialmente.
No fim, dia 13 de abril reestreiamos com a minha primeira live feita 99% remotamente, apenas eu dentro de um estúdio e toda a equipe operando remotamente.